TREMOR

segunda-feira, 09.04 01h15

Lista de enigmas para uso e reflexão, elaborada por Bruno Levorin e Haroldo Saboia, sobre aquilo que há de menor em um processo de criação.

  • Um tempo no infinitivo

A duração, a dilatação do tempo, sua suspensão. Qual qualidade de tempo é possível criar no encontro com uma ação qualquer?

Um corpo diz, um corpo faz. Um corpo invoca e gesticula memórias familiares. O que há de estranho nessas memórias?

  • Distância

     ponto a —————————————————————————— ponto b

                     [o espaço entre as coisas se expande ao infinito]

Há sempre uma infinidade a ser percebida sobre uma criação: verso e reverso, fita de moebius. O horizonte a que se caminha, dentre muitas coisas, por exemplo, pode ser imagem e produção de sentido experiencial. Isso nem sempre diz muito sobre o desejo das coisas, da criação. Todavia renova, a partir das suas ineficiências, a crença de que há algo ainda misterioso, não apreendido pelos criadores.

A escolha da ausência reafirma a presença das coisas. O horizonte, uma falácia necessária.

Sim e não, luz e sombra, único e singular, um e dois, um mais dois.

O dito não se aloja no visto, jamais.

Esperar não é o mesmo que espectar.

  • Ver é permanecer?

A beleza de toda leitura está contida no desaparecimento das palavras.

Quando alguém voluntariamente, com o livro sobre as mãos, a partir do que leu, busca respostas no mundo –  interrompendo a sequência temporal das frases e projetando seu olhar para longe do livro – transforma a palavra escrita, a palavra lida, a palavra vista, em fumaça.

Embace o olhar. Torne-o do texto e do mundo ao mesmo tempo.

Vagueie com a sua presença psíquica sobre todos os espectros de uma experiência.

Gere uma fuga que não tem um fora.

  • Perder-se é um desejo.

As coisas exigem engajamento para que com elas possamos nos perder. A educação pela pedra, a didática do contato.

A vista ensina o que as coisas intuem e falham sobre aquilo que é possível, mas não agora.

  • Tudo se sabe, nada se sabe.

Uma operação dialógica que acontece na linguagem: saber e não-saber, dizer e não dizer, fazer e não fazer. Aquilo que escapa pelas mãos.

As mãos são plano, composição, corte, imagem, corpo, unidade, bifurcação, diferença.

O que as mãos fazem em nós?

As coisas podem ser pelo que podem não ser, tomando dimensões às vezes maiores do que realmente são. As mãos me aproximam da realidade. Elas são o sumo da ficção e a gênese da materialidade.

Como duvidar com as próprias mãos?

  • O que sobra?  

A linguagem enquanto experiência que se realiza no corpo.

Quantos corpos é possível afirmar em um mesmo espaço?

“A situação desesperada da sociedade na qual vivo me enche de esperança”.